5. INTERNACIONAL 15.5.13

A amante do ex-presidente argentino Nstor Kirchner diz que sacolas cheias de dlares eram entregues na Casa Rosada e que a viva Cristina sabia de tudo.
TATIANA GIANINI

     Os segredos de alcova dos governantes so assunto privado sem relevncia para os rumos de uma nao. Essa  a tradio na maioria dos pases, com exceo dos Estados Unidos e de alguns outros. Quando a curvilnea Miriam Quiroga, em fevereiro de 2011, declarou que "era voxpopuli que eu era amante de Nstor (Kirchner)", o assunto foi esquecido pouco tempo depois. Ela havia sido secretria do ex-presidente argentino e, quando este morreu, em 2010, foi demitida por Cristina Kirchner, mulher e sucessora do seu amante. Dois anos depois, a relao de Miriam com Nstor deixou de ser uma simples fofoca e ganhou status de assunto de interesse pblico. Na semana passada, ela concedeu uma entrevista ao jornalista Jorge Lanata, apresentador do Periodismo para Todos (Jornalismo para Todos, em espanhol), um dos poucos programas da TV aberta que ainda ousam informar a populao argentina sobre as irregularidades do governo. Com roupas estampadas e oito anos mais jovem que Cristina  fato facilmente notado quando se compara quanto cada uma se v obrigada a recorrer  maquiagem , Miriam contou que, quando trabalhava na Casa Rosada, via o presidente receber pesadas sacolas com dinheiro vivo, quase sempre dlares. Um dos doadores era o empresrio kirchnerista Lzaro Bez, scio do casal Kirchner em negcios imobilirios e dono de uma empreiteira que realizava obras pblicas na provncia de Santa Cruz. Ele  acusado de lavagem de dinheiro, superfaturamento de obras pblicas e evaso de divisas. O depoimento de Miriam refora a suspeita de que as acusaes em andamento sobre Lzaro Bez, chamadas pela imprensa argentina de "Lzarogate", so verdadeiras e pe em xeque a credibilidade de um governo fragilizado por problemas econmicos e de corrupo. 
     Miriam comeou a trabalhar com Nstor na dcada de 90, durante seu governo na provncia de Santa Cruz. Sua influncia se acentuou em 2003, quando ela assumiu o posto de chefe de documentao presidencial e ocupou uma sala na Casa Rosada, a poucos metros do gabinete presidencial. Em mais de uma hora de entrevista na televiso, a ex-secretria disse que, depois de passarem pela sede do governo ou pela Residncia Oficial de Olivos, os sacos com o dinheiro de operaes ilegais eram levados a bordo do avio presidencial Tango 01 ou por terra at a cidade de Ro Gallegos, capital da provncia de Santa Cruz, onde o ex-presidente nasceu, ou para o pequeno municpio de El Calafate, reduto poltico dos Kirchner. Segundo ela, Nstor pediu que se acelerasse a construo de salas para guardar dinheiro e lingotes de ouro na casa da famlia Kirchner, em El Calafate. Miriam citou ainda um ex-assessor de Kirchner, Daniel Muoz, denunciado por enriquecimento ilcito, que pediu a ela para segurar uma das sacolas e perguntou: "Quanto voc acha que isso pesa? Quanta plata ser?". Cristina, segundo Miriam, estava a par dos negcios escusos do marido. 
     A ex-secretria ser convocada pelo juiz federal Julin Ercolini para prestar depoimento. As acusaes envolvendo Bez surgiram no ms passado. Embora a ex-secretria no tenha fornecido provas, a presidente tampouco saiu a desmenti-la. Enquanto as denncias se avolumam, a presidente Cristina Kirchner tenta salvar a economia do naufrgio. Na tera-feira 7, ela anunciou um projeto de lei que permitir aos argentinos pr em aplicaes bancrias os dlares guardados debaixo do colcho (colchn, em espanhol). O objetivo  cobrir as minguantes reservas internacionais do pas e controlar o cmbio. Isso equivale a evitar que um barco afunde tirando gua com um balde, em vez de tapar o buraco no casco, pois o verdadeiro problema da Argentina  a fuga de investidores externos e a inflao de 25% ao ano. No mercado paralelo, a moeda americana ganhou o apelido de "dlar Messi" depois de atingir 10 pesos, em referncia ao nmero da camisa do atacante do Barcelona. O plano de  Cristina prev que os dlares tirados do mercado negro sero investidos no setor imobilirio e na petrolfera YPF, recm-estatizada. Os argentinos suspeitam que o objetivo real seja abrir uma brecha para que os donos de sacolas cheias de dlares de origem ilcita possam lavar o dinheiro. 


